Na verdade foi muito difícil pra ele saber que ela havia se apaixonado por um sujeito como aquele. O cara, embora parecesse mais velho, era quatro ou cinco anos mais novo que ela e havia se divorciado a menos de ano. Ela, graduada em psicologia e pedagogia, sabendo que após a separação o sujeito ganhara o apelido de cadelão, deveria, ao menos, rever suas convicções e propósitos para com o dito ser. É o que se espera de uma pessoa inteligente.Tudo bem que paixão e amor não se moldem à idade, faixa social ou educacional e nem mesmo necessariamente à beleza, mas ela era do tipo que analisava muito e já havia dito que, se tivesse que mudar de marido, não seria por outrem que também fosse pobre. Pobre por pobre ficaria com o que tem em casa! Palavras dela. O sujeito, de apelido canino era de classe média alta, um sprint que Alfredo não tinha, pois era daqueles que vivia para gastar e gastava para viver.
Chegou no escritório bem. Aliás, naqueles dias ia muito bem, lia Eça de Queirós e praticava um novo esporte, na areia, estava empolgadíssimo. Espaços para a prática de esportes na areia era uma febre naquele final de quarto do século XXI. Corpo são, mente sã já dizia o antiqüíssimo ditado grego. Estava até bebendo pouco.
Laura, pelo contrário, andava mal. Todos percebiam sua impaciência em constantes atos de desinteligência rústica, e esse tipo de atitudes para quem sempre fez questão de se passar por sofisticada era uma mostra inefável de um péssimo momento.
Após o almoço Alfredo foi fumar, escondido, desta vez atrás da caixa d´água. Não era seu costume, mas quando estava meio lá meio cá ou com um serviço daqueles que lhe exigia mais concentração, ia para este lugar, estritamente reservado, onde ninguém o enxergava. Mais estranho ainda é que ninguém nunca o havia visto fumar e ele sempre chegava chupando bala de hortelã e às vezes falando mais alto, mais relaxado ou por vezes totalmente o contrário, calado, todavia sempre de cara boa.
No trajeto de volta até o escritório cruzou com Laura, fitou-a nos olhos, mas não foi retribuído; ao vê-lo ela fingiu, sem mais nem menos, mexer no smartphone. Sem qualquer boa tarde ou cerimônia Alfredo abordou-a no assunto que lhe afligia.
_ Deixa eu lhe perguntar uma coisa: você está tendo um caso?
_ Hein? Espera um pouco, não entendi… tudo bem com você? Vi que o seu time ganhou no final de semana, tá todo mundo falando desse jogo.
Ao ser surpreendida com uma pergunta tão sumária, Laura tentou se desvencilhar, mas o assunto era muito caro a Alfredo que fazia questão de esclarecer.
_ Laura, por favor, me responda.
_ Responder o que? Não tenho obrigação de falar de tudo, estou conversando contigo, vamos falar da gente, do seu time, da minha mãe que tá doente, sei lá.
_ Eu preciso saber: é verdade que você tem um caso e não é de hoje?
_ Como se não bastasse o momento difícil que vivo com a doença em família ainda tenho que dar satisfação da minha vida para quem não é meu marido, meu filho, pai ou avô, ah Alfredo, tenha paciência.
_ Tenha paciência você, Laura, tenha paciência você. Só quero saber se realmente aquele filho da puta tá te pegando, só isso. Eu tenho direito de saber…, e da sua boca.
_ E desde quando você tem direitos sobre mim, nem quis ficar comigo?
_ Como eu poderia não querer ficar contigo Laura, como, se você é a mulher da minha vida?
_ Você não quis, Alfredo, não quis! Eu achava você homem com h, homem com H maiúsculo!
_ Tá falando daquela manhã, naquele domingo, quando você começou a conversar assunto que eu nem conheço, perguntando se eu tinha pegado o negócio com o Funga, que negócio Laura? Depois de muito tempo fiquei sabendo que era uma película pornô, mas naquele dia pensei até que fosse droga ou alguma coisa muito errada, não entendi nada, aí você me mostrou numa mão um comprimido de antibiótico e na outra uma camisinha feminina, dizendo que eu poderia escolher, e eu disse que quem escolhe é você! Que dia triste Laura, eu não acreditei que você pudesse me dar assim, de uma hora pra outra, jamais imaginei possuir você de estalo, sempre te desejei pra mais, muito mais.
_ Você me humilhou como mulher Alfredo, foi isso que você fez.
_ Não, jamais, como? Eu me assustei Laura, faltou compreensão da sua parte, levar em conta o quanto eu sempre te admirei, o quanto te trato bem, só falto carregar água na peneira pra você. Naquele momento Laura, que você disse o nome de outra pessoa numa coisa que era só nossa foi você que me desqualificou, você, mulher, não fez questão de mim, pois me queria para um fetiche, um desejo, quando eu sempre te quis inteira, sem qualquer condição, sem qualquer mais ou menos em você ou de você, mulher, eu sempre fui encantado contigo e todo mundo sabe disso!
Alfredo fez ligeira pausa e com os olhos marejados seguiu, agora num tom mais ameno e de despedida.
_ Você foi muito infeliz Laura, vai passar pra história como a mulher que quis dar pra um homem que é apaixonado contigo e não conseguiu. Eu sempre fui seu, Laura, muito seu, mas não tanto a ponto de você impor no nosso primeiro encontro todo o meu comportamento, um verdadeiro script de dublê de ator pornô, porque sou homem demais pra isso querida, ou melhor, apenas um cavalheiro que só aceitaria tratar você como uma dama.
Laura, muda, descortinada e desconcertada não chorou ou demonstrou qualquer emoção adequada ao momento. Alfredo sentiu muito e até hoje não se sabe se ele apenas suspeita ou finge não ter certeza que o tal do Cadelão pegou mesmo a sua amada.
Lúcio da Silva, novembro de 2025
