O que ele havia feito com ela; ou o que ela havia feito consigo mesma? Essa era a pergunta que não calava. Perdera o brilho no olhar, e ponto. Tudo bem que não fosse aquele olhar tipo Dorival Caymmi ainda moço, longe disso, mas havia certeza, vida, propósito em sua postura e de uma hora para outra aquela pose natural conjugada a toda doçura de uma mulher formidável caíram por terra, diria que em questão de meses aquela figura de mais de meio século de vida que ninguém trocava por duas de vinte e cinco e sempre disposta parecia estafada, cansada, carente de diálogo, sem vontade de falar. Via-se e nitidamente se enxergava que a frustração jazia em si.
Era um semblante tão triste, como se fosse o contrário da alquimia, pois algo muito nobre e valioso transformou-se numa coisa seca, de se evitar. Ela, outrora tão graciosa e vívida, aquela musa de pose recatada e ao mesmo tempo extremamente sensual havia se transformado numa mulher rancorosa. Cheguei a lembrar de Cora Coralina: “Salva-me, Senhor, do horizonte sem estímulo ou recompensa, onde o amor equivale à ofensa”.
Há pouquíssimo tempo, quando comentavam sobre Abel Ferreira, o bem sucedido técnico do Palmeiras: “_ Novo né!”, Alfredo sentira uma ponta de ciúme. O mesmo acontecia ao se deparar com falas sobre outrem, bastava ser do seu sexo, fosse quem fosse, até no grupo de whatssap. Desejava aquela mulher, mas não era para usufruir de seu corpo, queria viver, passear, conhecerem-se noutros ares, pois nutria pela dama algo que não tinha. Boceta nunca foi problema pra ele, estava carente era de beijo na boca, carinhos, abraços, conversas e novas diretrizes para a vida, intenções estas que nunca foram corroboradas por Fernanda.
Era muito claro e perfeitamente audível a distância das pretensões e sentimentos de um em relação ao outro, mas não se imaginava fosse tanto, talvez Deus ou o diabo, mas ninguém fazia ideia do que estava por vir.
Num domingo, como os demais, a caminho das práticas de atividades físicas pela manhã, para sua absoluta surpresa, sem mais nem menos, foi abordado pela dama e convocado a ir com ela para o motel, sob script e enredo pornô por ela definidos. O cara não acreditou, deixou de compreender, absteve-se de raciocinar ou raciocinou demais e terminou por recusar o contive.
Era inacreditável, Alfredo pegava geral, não todas, como diziam, mas várias. Sua fama transpunha as barreiras das cidades, tinha renome regional. No início do século, ao término de sua juventude, num dia dos namorados, chegou a encomendar três buquês.
Nunca um homem havia abdicado de um momento assim com Fernanda, jamais. O desagradável e imprevisível ato de Alfredo, melhor dizendo, sua negativa em praticar
o ato, o desfecho esdrúxulo, imprevisto e inexplicável daquela ocasião jamais poderia ser imaginado.
_ Você vai ver o que eu vou fazer com cê! Disse-lhe a fêmea, sem meias palavras, com a tez cruviana a exalar mágoa e ressentimento pra mais de metro.
E como a vingança é um prato que se come frio Fernanda esperou um pouco.
Foi num belo dia de verão de sol inquietador, à primeira oportunidade que tiveram a sós.
_ Vê o fulano, olha como está bem vestido!
_ Não, querida, nunca fui de reparar homem… – neste momento Alfredo fitou o cara – mas com certeza tá muito arrumadinho; fez a barba, cabelo aparado, usando cinto com bermuda e camisa de botão, quem diria, o cadelão trajando uma camisa esporte fino em tarde de folga, ah, Fernanda, com certeza vai pra putaria! Tem um encontro agendado e, pelo visto, é pra já.
_ Com quem será?
_ Não faço a mínima ideia, deve ser alguém daqui e o bicho vai pegar, né não?
_ Você não se interessa em saber quem é?
_ Com sinceridade, não! A esta altura, Alfredo, leve e solto, feliz em conversar com sua amada, disse: sabe como é … alegria de mulher que não dá é falar das colegas que dão; já os caras caretas adoram falar do pessoal que fuma maconha e por aí vai. Já mexi muito com isso fofa, não quero saber da vida de ninguém.
_ É mesmo? Pode ser com qualquer pessoa?
_ Por que não? Desejo que ele e ela ou ele e ele tenham os momentos que quiserem.
Ela suspeitou que Alfredo tivesse entendido, principalmente pelo tom da resposta, pois havia um pigmento de rancor em suas declarações, ao sugerir que o cadelão gostasse de meninos e meninas, o que não fazia o tipo de Fernanda. Enfim Alfredo teria se dado conta acerca dos parceiros!? Ledo engano, o cara era admirador dela, construíra em sua mente uma imagem de mulher casta, completamente devotada ao trabalho e à família.
_ Ele pode se encontrar com qualquer pessoa que você não liga, não é mesmo?
Alfredo estranhou aquela insistência completamente despropositada, mas nada superava o encanto da indelével armadura de mulher ideal nela personificada e que habitava cotidianamente seu imaginário.
_ Só se for contigo, porque aqui, formosa dama, nessas bandas de cá eu só me interesso por ti, e como tu és uma mulher casada e nunca foste dessas coisas, eu não quero saber. Disse numa pretensa voz sensual. Ele gostava de usar, vez por outra, quando tinha intimidades, a segunda pessoa do singular.
Depois a conversa foi ficando um pouco ríspida, Fernanda tinha, agora, a certeza de que Afredo não compreendera o momento e sua vingança, apesar dos esforços, restava inócua. Foi quando perdeu a elegância.
_ É, e se eu disser que tenho saído com alguém?
_ Eu não acredito?
_ E se você acreditar, se tiver certeza, absoluta, o que acontece?
_ Eu caio no chão, tenho um mal súbito, dou um troço aqui e não levanto nunca
mais.
Mesmo Fernanda perguntando algo tão insólito, Alfredo não captava a mensagem, não se dava conta. Dizer que o amor é cego não é mera força de expressão.
_ E o que eu tenho de fazer pra você acreditar?
Alfredo pensou um pouco, seu rosto já não exalava descontração.
_ Ah, se você trouxer a pessoa, na minha frente e ela disser que está saindo contigo, aí… bem… aí eu acredito.
Então ele iria cair no chão, pensou Fernanda, ao mesmo tempo em que destilava um olhar carregado de mágoa, o qual foi evitado por Alfredo que não a encarou.
Começou a rolar um zum zum entre os presentes no sentido de que ele, Alfredo, precisava saber de alguma coisa. Instantes depois lá estavam o cadelão e Fernanda, bem como alguns colegas, ao redor, à espreita, uns curiosos, outros prontos para se regozijarem com a possível, melhor dizendo a provável reação de profunda decepção e perplexidade que estava prestes a se abater sobre Alfredo; tinha gente preocupada com a reação, expressava-se dó e pena também, mas estas não foram vistas; diziam que ele não sabia brigar, mas que tinha uma arma, enfim, também havia um pequeno público que ali estava apenas para ver qual era a do movimento, pois alguma coisa aconteceria com o tal de Alfredo.
_ Gente, o que é que vocês têm pra me dizer? Que coisa é tão importante assim pra ter até platéia pra ver?
Fernanda estava mais ao canto e cadelão, postado um pouco à frente dela se dirigiu a Alfredo e, meio que gaguejando, sem jeito, vexado por um papel tão pueril, disse: Eu, eu saí com ela.
_ E o que é que eu tenho com isso? Me diz! Pô galera, tanto problema, a gente vem aqui pra distrair e vocês ficam me incomodando com a vida alheia?
Fernanda esboçou uma reação de desapontamento e, reflexamente, o cadelão logo matou a charada: a ficha não havia caído para Alfredo. Cadelão era naturalmente mau caráter, adepto de tudo quanto é fetiche sexual, sabia de cor os nomes de atores estrangeiros e nacionais de sexo explícito, conhecia e se servia das “melhores” garotas de programa da cidade e de pronto informou, em total desrespeito com tudo e com todos, inclusive consigo mesmo, de certa forma: Alfredo não ficara ciente do recado!
Alguém ainda tentou falar que era para prestar atenção em quem saía com quem naquela turma, apontando para Fernanda. Alfredo indagou: Ela? Em seguida viu Fernanda acenando com a cabeça e o nariz para frente, num sinal de positivo recheado de escarninho, quando ouviu dele, sob faceta desiludida:
_ Você, fofa… ah, tomara que tenha sido bom nesse momento que cê tá passando. Alfredo se referia ao drama familiar vivido por Fernanda em razão da doença de seu cônjuge.
Ela, extremamente puta da vida, bradou: _ Melhor do que contigo! Alfredo, que nada entendia, clamou:
_ Ô fofa, pelo amor de Deus, senta aqui e me fala o que tá acontecendo. Como pode dizer isso de mim se a gente nunca teve nada, só se ele for melhor de papo do que eu.
Dizem alguns que em meio à cena, uma colega teria dito: “Alfredo, ela é uma cadela!” E ele, recusando-se a acreditar ou não acreditando mesmo, chegou a dizer: “Ah, a cadela”, em referência a um cãozinho que ali estivera semanas antes, sendo certo que o local era proibido para animais, fossem eles pets ou não. Fernanda ameaçou estapear Alfredo, que se levantou e disse: “Que isso, você me conhece, jamais diria isso, nem se você fosse”. E assim findou aquela efervescente manhã de domingo.
Reza a lenda que, depois disso, Fernanda e cadelão tiveram um caso que se estendeu até que viraram meio que quase amantes, mas apenas ela, somente ela se apaixonou. Dizem as más línguas que desoladoramente ele teria oferecido a ela a parte baixa de sua casa.
Alfredo continua apaixonado, porém, a esta altura, já ciente de que não será matriz tendo apenas amor pra dar. Ao menos lhe sobrou ouvir Matriz e Filial, daquela gravação de 1981, ao vivo no Olympia, com Nelsão (Nelson Gonçalves).
Lúcio da Silva
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