Ao saber que o marido de Fernanda estava se alimentando com sonda e
tinha tirado um pedaço do órgão, tecido, músculo, seja lá o que for, Alfredo ficou
completamente arrasado.
Sentiu-se um verdadeiro canalha ao lembrar de certo dia quando disse a
ela: _ Você é a coisa mais fofa do mundo, se um dia estiver sozinha, você me dá
preferência?
_ Nem se você fosse o último homem do mundo!
Os casamentos de ambos eram uma m… interminável angústia. Muito pior
era o de Alfredo, que tinha um lar rancoroso com seu passado de jovem casado
de pouco aliado a boêmia e uso de etílicos, dentre outras substâncias. Tudo isso
transformou sua patroa numa pessoa instável, ríspida e desencantada.
A união de Fernanda já não vinha bem há tempos, muito antes de sabida
a doença de seu cônjuge já pensava em romper o vínculo, coisa que não
aconteceu por causa do filho, ainda pequeno.
Alfredo era homem de poucas palavras, jamais teria dito a ela que a queria
para si quando estivesse só caso soubesse da fatalidade de seu marido, nunca.
Aquilo mexeu demais com ele, mais ainda por não saber se Fernanda
entenderia que ele realmente ignorava tal fato naquele momento latente em que
ela começava a lidar com a situação, a ficha ainda caindo, se refazendo do susto.
Embora sequer se lembrasse da última vez que havia rezado, fato é que, todos
os dias, logo que acordava, solene e concentradamente entrava em oração: uma
Ave Maria e um Pai Nosso para que Fernanda fosse forte o bastante na
condução de um momento tão difícil.
Espero que o leitor não se indague se Alfredo fez alguma oração para o
marido, posto que definitivamente esta pretensa dádiva não ocorreu, ao menos
até a presente data.
Mas eis que ambos se encontram, ou melhor, se esbarram no vai e vem
da cidade:
_ Quanto tempo, Fernanda, estava ansioso para me desculpar contigo,
jamais diria aquelas palavras naquele dia caso soubesse da doença em família.
_ Não diria o que?
_ Que eu queria ser seu primeiro pretendente se um dia você ficar
sozinha, não compromissada.
_ Ah, naquele dia não se sabia de nada ainda.
Saber que Fernanda não guardava nenhum ressentimento daquela
cantada o aliviou consideravelmente, desincumbiu-o de um fardo, ou melhor, de
um verdadeiro peso na consciência.
_ Mas e você e a família, como têm passado?
_ Bem, graças a Deus, lutando com as dificuldades.
Alfredo não sabia o que falar. Ela estava sem óculos, os cabelos soltos,
coisa rara de se ver, e ele, como sempre, bobo demais, encantado, gamado,
vivendo o momento, aquela sublime visão, quando a musa lhe disse:
_ Ficou sabendo da Vera? Divorciou mesmo né, preferiu o sindicato e
suas andanças a ficar com a família. Também, era todo final de semana viajando,
parece que o marido deu um ultimato e ela aceitou o divórcio, e com prazer,
dizem as más línguas.
_ E você?
_ Eu o que Alfredo?
_ Continua casada?
_ Nossa, como você viaja, claro que sim. E olha, se eu casar de novo, vai
ser com um homem rico, pobre basta o que eu tenho em casa!
_ Você tá falando assim pra me afastar de você, duvido que realmente
pense desse jeito.
Convém abrir um parêntese nesta estória, lembrar de Jung, o segundo –
ao menos em fama – da psicanálise mundial, para quem o amor consiste em
justamente enxergar na pessoa o que ela tem de bom, e só, não ver os defeitos.
Simples assim, caro leitor, só isso, nada mais. E se alguém ficou frustrado vá
discutir com eles que se dizem entendidos do assunto, não comigo.
Voltando à conversa, sabe qual foi a resposta de Fernanda:
_ Você nunca ouviu aquela frase: homem gosta de sexo, mulher gosta é
de dinheiro!
Ao ouvir aquelas palavras, o que se esperava de Alfredo, com sua
personalidade forte, de homem decidido que sempre foi, excelente chefe de
turma, gestor carismático e profissional hábil e talentoso, além de comprometido
com seus afazeres? Seria, com certeza, um rompimento imediato, uma
reprimenda à altura, do tipo “vai dar pra algum milionário sua vagabunda!”.
Mas não, sabe o que ele fez? Baixou os olhos e pensou alto, meio que
indagando a si mesmo: “Então vou ter de ficar rico?!”.
Como é que pode aquele sujeito sério que não tinha medo de nada e
tratava a todos, peões, engenheiros, padre, o dono da construtora, sempre da
mesma forma; um cara querido por seus subordinados e respeitado pelos
superiores, um ser humano de alma altruísta, ele, Alfredo Souza quedava-se por
inteiro aos pés daquela mulher, da forma mais humilhante possível, como se ele
e as demais pessoas do mundo fossem a mesmíssima coisa.
A malvada criatura sorriu com satisfação, olhando para ele de um jeito
nunca dantes; mas ele não viu a cena, pois estava pensando alto, cego de
paixão, estarrecido, com seus pensamentos acorrentados àquela bruxa que
tinha a voz de Dulcinéia, a malícia de Frinéia, mas jamais a pureza de Maria. (v.
Adelino Moreira)
Lúcio da Silva
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